O desafio de traduzir “O Senhor dos Anéis”

sexta-feira, fevereiro 26th, 2016

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Uma das áreas da tradução que mais atrai a atenção do grande público é a tradução literária. Cada ano, milhares de obras estrangeiras são traduzidas ao nosso idioma causando diferentes reações por parte dos fãs e da crítica geral. Logo de início, já podemos sentir a grande responsabilidade que recai em um tradutor literário … Mas, e se o livro em questão, que está sendo traduzido, é uma das maiores e mais épicas histórias da literatura moderna? Um livro que inspirou e inspira dezenas de novas obras? Um livro que influencia fãs de todo o mundo, e é extremamente rico e cheio de detalhes?

Bem-vindos ao mundo da tradução de “O senhor dos Anéis”.

Escrito entre 1937 e 1949, o romance do britânico J.R.R. Tolkien narra a luta de vários seres fanáticos contra o mal que se espalha pela Terra-média, e a jornada para tentar evitar que o “Anel do Poder” volte às mãos de Sauron, o senhor do escuro. Carregado de grandes referências do folclore europeu, o livro é extremamente trabalhado e possui até sua própria língua, o Sindarin, que foi criado a partir de línguas europeias já existentes como o galês e outras línguas celtas. Um desafio e tanto para ser traduzido ao português.

As duas primeiras traduções do livro (para o alemão e sueco) foram bem livres e não se atentaram muito para a adaptação dos nomes próprios, fato que deixou o autor extremamente chateado e descontente com ambas versões. Como não poderia ser de outra forma, um autor tão metódico e preocupado com sua obra não poderia deixar as traduções de seus livros largados à sorte e decidiu escrever a “Guide to Names in The Lord of the Rings” (Guia aos nomes em O Senhor dos anéis, em uma tradução livre”).

Lá, ele monta uma lista dos nomes que não devem ser traduzidos ou alterados, explica as diferentes etimologias e origens entre os nomes das personagens (para uma correta adaptação no idioma de chegada). Por exemplo, vejamos abaixo a explicação para o nome do personagem Bilbo Bolseiro:

“Baggins. Intended to recall ‘bag’—compare Bilbo’s conversation with Smaug in The Hobbit — and meant to be associated (by hobbits) with Bag End (that is, the end of a ‘bag’ or ‘pudding bag’ = culde-sac), the local name for Bilbo’s house. (It was the local name for my aunt’s farm in Worcestershire, which was at the end of a lane leading to it and no further). Compare also SackvilleBaggins. The translation should contain an element meaning ‘sack, bag’.”

O glossário inclui praticamente todos os nomes encontrados na saga e boa parte deles precisou ser traduzido, com um grande processo criativo e de pesquisa envolvido e levou dois anos e meio para Lenita Esteves traduzi-lo ao português (os três volumes).

Pelo esforço envolvido no trabalho, e pelo conteúdo impressionante e extremamente bem escrito, podemos afirmar que “O Senhor do Anéis” é um livro que marca sua época e ainda marca gerações de leitores. E, como sempre, uma boa tradução é aliada desses livros que fazem história.


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