O caso “Sicansíos” e o trabalho do dublador

sexta-feira, maio 3rd, 2019

A briga popular de pessoas que gostam de filmes legendados vs. dublados não é nova. Há muitos e muitos anos que pessoas justificam suas escolhas e suas preferências conforme essa ou aquela característica. Já falamos anteriormente sobre legendagem, e hoje voltamos a nossa atenção à dublagem de um famoso seriado da atualidade.

Um caso recente tomou o twitter espanhol, após a estreia do último capítulo de Game of Thrones. A cena abaixo mostra o momento em que uma tempestade, trazida a Winterfell pelos whitewalkers, impede que Daenerys enxergue as pessoas que estão lá embaixo. O personagem, nesse momento, afirma “She can’t see us”. Porém, na dublagem espanhola da série, a frase foi dublada como “Sicansíos”. Que significa absolutamente nada.

A princípio, os holofotes e o repudio se viraram para os dubladores, mas, há algo que precisa ser corrigido: Os dubladores nada mais são que atores que interpretam as falas escritas em um roteiro. Erros de tradução são responsabilidade da equipe de tradução e produção. Sabendo disso, como é possível que um erro tão básico tenha passado batido?

Primeiramente, a falta de tempo para realmente trabalhar com calma e verificar as falas é um dos problemas. O capítulo dublado precisa estar pronto e disponível muito pouco tempo após o lançamento do original. Mas não foi só essa a causa do faux pas: devido aos vários problemas de capítulos vazando, a própria HBO não envia os capítulos na íntegra para os tradutores, mas apenas o áudio, sem imagens ou contexto. Desta forma, eles evitam que qualquer capítulo possa ser roubado ou ir parar nas redes mas, ao mesmo tempo, prejudicam o público final: uma tradução sem contexto não é clara, e pode gerar muitos problemas e confusões, que é o caso do que ocorreu na Espanha.

Toda essa situação gerou um debate, sobre como o trabalho do tradutor tem sido precarizado e complicado nos últimos anos, com o advento dos lançamentos simultâneos de filmes e seriados. Adicionalmente, pensar que a qualidade da tradução e o entendimento do que está sendo dito é secundário, e que a maior prioridade das emissoras é evitar algo como vazamentos, é extremamente preocupante. Afinal, podemos estar recebendo mais conteúdo mal traduzido do que imaginamos.

Se, para a tradução tradicional, de documentos, manuais e artigos acadêmicos, temos paciência para aguardar os prazos estabelecidos, porque não temos os mesmos critérios com o conteúdo audiovisual? Deixamos essa reflexão para nossos leitores e, esperamos, que esta situação nos ajude a mudar a forma como tratamos nossos tradutores e dubladores, que tanto fazem por nós e por nossa produção cultural!


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