Sobre ser tradutora

quinta-feira, maio 8th, 2014

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O Tunai me disse (1)

Milton Nascimento talvez possa me ajudar a explicar o que é ser tradutora. Em “Certas canções” (2), Bituca canta que, ao escutar algumas músicas, se pergunta como não foi ele quem as fez. É por conhecer tantos textos que me provocam tal sensação de identificação (ou pura inveja, confesso), e por desejar ter escrito tantas coisas geniais, que eu me encontrei na profissão de tradutora. Parafraseando alguém (que, por ironia, desconheço), digo sempre que a tradução é como uma forma autorizada de plágio. Adoro essa ideia de felicidade clandestina, pois é a minha chance de reinventar a roda sem julgamentos e de assumir a identidade de quem admiro. É a minha oportunidade de transitar por diversos campos do saber e ser muitas pessoas de uma só vez. Quando traduzo, visto a roupa do autor e deixo meu cheiro, um rastro quase subliminar, mas que é identificado por quem é sensível e nota as nuances da língua. Curiosamente, enquanto o cantor é o grande protagonista de uma obra (e seu compositor tende a ser simples sujeito oculto), o tradutor é, via de regra, o intérprete devoto e anônimo de um autor.

 

 

 

 

 

Texto escrito por uma de nossas tradutoras, Renata Peres.


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